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Perto de Lá < > Close to There: João Oliveira and Amina Ross in Conversation

Esta entrevista foi editada para garantir clareza e comprimento, e foi traduzida para nossos leitores no Brasil com as seções em português em itálico, e em inglês em tipo normal.

Amina: Oi João, eu estava olhando as gravuras feitas com as peles de animais de plástico abertas e achei que temos um interesse em comum naquilo que existe alem da superficie do dia-a-dia. Como você expressou tão bem, eu vejo seu interesse em uma “força capaz de romper a superfície daquilo que se acostumou.” Existe alguma coisa que você procura encontrar no desdobramento de um corpo? No rompimento da superfície? Há ainda alguma coisa que você não encontrou? O que continua a te mover nessa exploração?

This interview has been edited for clarity and length, and translated for our readers in Brazil with the Portuguese sections in italics, and the English sections unitalicized.

Amina:  Hi João. I was looking at the prints made of the unfolded plastic animal skins and I think we share an interest in what exists beyond the surface of our everyday. As you put it so well, I see your interest in “a force capable of rupturing the surface of that to which we’ve become used.” Is there anything you hope to find in the unfolding of a body? In the rupturing of the surface? Is there anything that you haven’t found yet? What keeps you going in this exploration?

Image: Still from “Onyx at sunset,” by Amina Ross. Image courtesy of the artist.
Imagem: Animação “Onyx at sunset” [“Ônix ao ocaso”] de Amina Ross. Imagem cortesia da artista.

João: Amina, oi. Vou tentar responder como posso porque não são perguntas de respostas fáceis ou imediatas. Ainda não encontrei nada e acho que nunca fiz pela resposta ou pelo que espero encontrar. Me mantenho nessa exploração pela própria força movente que uma pergunta, por mais banal que seja, pode ter e, nesse sentido, é aí que a superfície se rompe porque uma pergunta move outra e movendo mais uma, continua.

O que eu quero dizer (talvez a gente possa concordar nisso) é que, às vezes, as respostas podem vir fáceis demais e como artista, acho que esse pode ser um campo perigoso… algo que responde pode apaziguar um vulcãozinho  e eu não quero ser apaziguado… Minha tentativa, então, é exercitar o meu olhar e buscar a minha perspectiva para aquilo que se apresenta diante de mim e talvez minhas obras sejam precisamente a impossibilidade de responder algo.

Pensando a partir disso, olhando seu trabalho, percebi a forte relação que eles têm com o tridimensional, mas não só isso. No meu caso, que venho da gravura e entendo a gravura como detentora de certa tridimensionalidade porque na gravura nada é plano, fui do bidimensional para o tridimensional (levando a gravura para o corpo e o pensando como um espaço gráfico, passível de imprimir suas marcas, dobras, vincos) e depois fazendo o caminho inverso (me apropriando de animais de plástico tridimensionais e transformando-os em matrizes e os imprimindo), como você percebe esse trânsito em sua obra? Fiquei pensativo sobre o seu processo criativo porque você trabalha com o bi e o tridimensional, o digital e o físico, com o seu corpo, de alguma maneira, como no seu trabalho “Soft Interiors” [‘interiores macios’]. Pode falar um pouco dessas relações, por favor?

João: Amina, hi! I will try to answer as best as I can, because these questions don’t have easy or immediate answers. I still haven’t found out anything, and I don’t think I’ve ever done it for an answer or for what I expect to find. I keep exploring because of the moving force that even the most banal question can have. In that sense, this is where the surface is ruptured. One question moves another and keeps going.

What I want to say (maybe we can agree on that) is that, sometimes, answers can come too easily, and as an artist, I think this can be a dangerous field… Answers can appease a small volcano and I don’t want to be appeased… My attempt is then to exercise my gaze and find my own perspective about what appears before me.  Maybe my works are precisely the impossibility of giving an answer.

Looking at your works, I saw the strong relation that they have with the three-dimensional, but not just that. In my case, I come from engraving and understand engraving as possessing a certain three-dimensionality because in the print nothing is flat. I went from the two-dimensional to the three-dimensional (taking the engraving to the body and thinking it as a graphic space, capable of imprinting its marks, folds, creases) and then doing the reverse path (appropriating three-dimensional plastic animals and transforming them in matrices and printing them). How do you see this transit in your work? I started musing about your creative process because you work with both the two- and three-dimensional, the digital and the physical, and with your own body, in some way, as in “Soft Interiors”. Could you tell me more about these relations?

Image: João Oliveira in the gallery with his series, “pequenos divertimentos” [“little amusements”, 2019] at Mouraria 53 in Salvador, Bahia, Brazil. Photo by Pablo Cordier.
Imagem: João Oliveira na galeria com sua série “pequenos divertimentos,” (2019) exposta na Mouraria 53 em Salvador, Bahia, Brasil. Fotografia por Pablo Cordier.

Amina: Antes de responder às perguntas que você fez, eu quero responder com uma grande admiração pelo seu apreço por perguntas e a arte de perguntar.  Eu penso muito sobre a natureza divina do mistério e do não-saber. E minha fascinação com os componentes misteriosos deste mundo e além que me fazem continuar fazendo arte. Para além de perguntar pelas respostas, eu acho sim que há descobertas que existem além de respostas mas ainda sim importam. Muitas dessas pequenas descobertas vem a partir daquilo que você descreve (tão belamente!) como o trânsito entre dimensões e espaços. O trânsito entre o bidimensional e o tridimensional, o digital e o físico, meu corpo e o objeto. Me intriga a liminaridade, o que eu considero como o entre-espaço do mistério, do não-saber, onde possibilidades do que é e do que pode ser se abrem. Meu interesse no liminal é informado de muitas maneiras pela minha relação com a minha própria sexualidade, raça, gênero, etnia, e um entendimento de identidade como algo que não é fixo; essencialmente, meu interesse em liminaridade vem da minha experience corpórea. E me movendo a partir daquele espaço eu me encontro perseguindo o entre-espaço entre as mídias. Na realidade sociopolítica do nosso mundo, me desperta a curiosidade como a liminaridade, o construir pontes e ligações, o não-saber, o fazer perguntas e a dissolução das fronteiras entre “aqui” e “ali” podem funcionar como modos reais e imaginativos de atender aos problemas do nosso mundo.

Vou voltar as palavras que você usou ao discutir a gravura, “nada é plano,” eu acho que a ausência da planeza também se aplica a outros aspectos do nosso mundo. Por exemplo, apesar do desejo da tela de televisão de desaparecer seu corpo e se realizar como uma imagem flutuante, uma tela plana de TV está longe de ser plana. E apesar de como conceitos sociopolíticos ficam reduzidos quando filtrados pelas redes de noticias, nenhum problema é um plano. 

Eu quero te perguntar algo sobre planeza ou superfície, estrutura arquitetônica e o corpo. Como você vê essas coisas funcionando no seu trabalho?

João: Engraçado que ontem eu estava assistindo a uma série e num determinado momento da história uma das personagens disse algo como: ‘Posso perguntar se estou fazendo a pergunta certa?. Essa mesma pergunta, eu me faço constantemente porque ela abre espaço para tudo aquilo que não sabemos e ignoramos quando fazemos uma pergunta determinada. Nos últimos anos tenho tentado incorporar cada vez mais o não-saber ao meu trabalho porque nós vivemos cercados de informação, obrigados a saber de tudo todo o tempo, sobretudo em determinados espaços da arte. Eu não gosto da ideia da ‘pesquisa’ porque ela aproxima as coisas de um campo muito pragmático que me assusta e distancia, então eu prefiro pensar na ‘busca’ porque, mesmo que só na minha leitura semântica, ela permite um caminho de enunciados e incongruências que me interessa mais. Gosto de pensar enquanto vou fazendo, com as mãos, porque em certo nível, gosto de não fazer ideia de que estou fazendo e tenho buscado o não-saber como um método legítimo. Algo como não saber, mas precisar fazê-lo, um saber mais baseado na intuição do que numa espécie de pragmatismo científico. Isso não significa estar alheio ao meu próprio trabalho, pelo contrário, significa me colocar num estado tal de abertura que me permite ser atravessado pelas “possibilidades do que é e do que pode ser abrem”, como você escreveu. Nós precisamos ter alguma confiança no próprio processo, e assim eu sigo porque não posso fazer de outro jeito. 
Nesse sentido, respondendo mais diretamente à sua última pergunta, eu preciso concordar com você porque tudo vem da minha experiência corpórea, de um desejo-ímpeto-tentativa de romper essa membrana de celofane que turva o incógnito. Irei responder com um trabalho, que se chama “como poderia eu de outro modo aproximar-me dele?” [“how could I otherwise approach him?”] (olha a pergunta aí de novo) que se relaciona com planeza ou superfície, estrutura arquitetônica e o corpo. Esse trabalho foi desenvolvido a partir da relação com uma obra arquitetônica da arquiteta Lina Bo Bardi, chamada Coati. Dos relevos que se salientam em relação à superfície natural, tentei encontrar no meu corpo, encarquilhado, franzido, as depressões que refazem essa arquitetura — espécie de contra-forma do homem, feita por ele, para ele e em sua escala — que envolve seu corpo, denuncia suas pregas e aponta suas sombras.

Amina: Before I answer the questions you’ve posed I want to respond with a deep appreciation for your fondness of questions and the art of asking. I think a lot about the divine nature of mystery and of not-knowing. It is my fascination with the mysterious components of this world and beyond that keep me making. Beyond asking for the sake of answers, I do think there are discoveries that exist beyond answers but still matter. Many of these small discoveries have come through what you’re describing (so beautifully!) as the transit between dimensions and spaces. The transit between the two-dimensional and the three-dimensional, the digital and the physical, my body and the object.

I am intrigued by liminality, which I hold as the in-between space of mystery, of not-knowing, where possibilities of what is and what can be open up. My interest in the liminal is informed in many ways by my relationship to my own sexuality, race, gender, ethnicity, and an understanding of identity as an unfixed thing, in essence my interest in liminality comes from my embodied experience. And in moving from that space I find myself pursuing the space of the in-between across mediums. In the socio-political realm of our world, I am curious about how liminality, bridge-building, not-knowing, question-asking, and the dissolution of borders between “here” and “there” can function as real and imaginative modes of pursuing our world’s problems.

I’ll return to the words you shared in discussing printing,“nothing is flat”. I think that the absence of flatness can be applied to other aspects of our world. For example, in spite of the television screen’s desire to disappear its body and realize itself as an unhoused floating image, a flat screen tv is far from flat. And in spite of how reduced sociopolitical concepts become when filtered through news media, no problem is a flat problem.

I want to ask you something about flatness or surface, architectural structure and the body. How do you see these things functioning within your work?

João: It’s funny that just yesterday I was watching a show and at a certain moment in the story, one of the characters said something like: “Can I ask if I’m asking the right question?” This same question I constantly ask myself, because it opens up room for everything that we don’t know and that we neglect when we ask a certain question. In the past years, I have tried to incorporate ever more the not-knowing in my work, because we see ourselves surrounded by information, obliged to know everything all the time, especially in certain art spaces. I don’t like the idea of ‘research’ [‘pesquisa’] because it brings things near to a field that is very pragmatic and that scares and distances me, so I prefer to think about ‘seeking’ [‘busca’] because, even if only in my semantic reading of the word, it allows me a path of utterances and incongruities that interests me much more. I like to think as I make, with my hands, because at a certain level, I like having no idea what I am making and I have sought the not-knowing as a legitimate method. Something like not knowing, but needing to do it, a knowing that is more based on intuition than on a kind of scientific pragmatism. This does not mean being alienated from my own work, on the contrary, it means putting myself in a state of openness such that allows me to be traversed by the “possibilities of what is and what can be,” as you wrote. We need to have some confidence in the process, and I go on this way because I cannot do it any other way.

In that sense, responding more directly to your last question, I have to agree with you because everything comes from my corporeal experience, from a desire-impetus-attempt to rupture this cellophane membrane that muddles the unknown. I will answer with a work that is titled “como poderia eu de outro modo aproximar-me dele?” [“how could I otherwise approach him?”] (you can see the question there again) which relates to this flatness or surface, an architectural structure and the body. This work was developed from the relationship with a house designed by architect Lina Bo Bardi, called Coati. From the reliefs that raise from the natural surface, I tried to find in my body, wrinkled, frowned, the depressions that remake this architecture — a sort of counter-form of the man, made by him, for him and in his scale — that envelopes his body, discloses his pleats and points out his shadows.

Image: João Oliveira, “como poderia eu de outro modo aproximar-me dele?” [“how could I otherwise approach him?”], iron and plaster, 2019. The work dialogues with the architecture of the Coaty House, designed by Lina Bo. Salvador, 2016. Photo by Pablo Cordier.
Imagem: João Oliveira, “como poderia eu de outro modo aproximar-me dele?” [“how could I otherwise approach him?”]. Installation at Coaty House, Salvador, 2019. Photo by Pablo Cordier.

Por fim eu gostaria que você me respondesse com uma obra sua. Estou pensando especificamente no frame desse vídeo. ‘I don’t want to manifest my fears’ [‘eu não quero manifestar meus medos’], está escrito. Quais são os seus medos e como eles interferem no seu trabalho? Meus medos são tantos e eles não podem ser planificados ou achatados… No Brasil, na atual conjuntura política, sendo gay…

Amina: Obrigada por sua vulnerabilidade em começar a compartilhar seus medos comigo. Estes são tempos assustadores – a violência direcionada a pessoas queer, negras, pobres, imigrantes… é inegável, hiper-visível e sentida profundamente. Quando fiz aquele trabalho que você mencionou, “if today never gives up on me” [“se o hoje nunca desistir de mim”], eu estava passando por níveis altos de ansiedade, estava no meu limite e no processo de uma grande mudança na minha vida interpessoal, nos meus relacionamentos e no meu entendimento de mim mesma. A um nível estrutural e cultural, havia acabado de acontecer, nos Estados Unidos, uma série de assassinatos policiais de pessoas negras que não portavam armas, o que despertou medo, raiva, tristeza e a necessidade de mudança em mim e naqueles a minha volta.  Eu senti uma onda de dor e energia para destruir aquilo que venho chamando de “as velhas maneiras” (colonial-branco-supremacista-cis-hétero…), sistemas de controle, administração, poder e opressão. Embora entenda que essas maneiras ainda não são velhas, chamá-las de velhas tem sido uma prática de imaginar um mundo sem esses sistemas nojentos de agressão e violência. Imaginar tem sido um espaço para me mover além do meu medo.

Finally, I would like to ask you to reply with one of your works. I am thinking specifically about a frame in this video: it says, ‘I don’t want to manifest my fears.’ What are your fears and how do they interfere in your work? My fears are many and they cannot be planified or flattened… in Brazil, in the current political conjuncture, being gay…

Amina:  Thank you for your vulnerability in beginning to share your fears with me. These are scary times, the sort of violence directed at queer people, black people, poor people, immigrants … is undeniable, hypervisible, and deeply felt. At the time of that work you mentioned, “if today never gives up in me” [‘se o hoje nunca desistir de mim’], I was experiencing high levels of anxiety, I was at the edge of myself and in the process of great change within my interpersonal life, my relationships, and understanding of myself. On a structural and cultural level, there had been a string of police shootings of unarmed black people within the U.S. that stirred up fear, anger, sadness, and the necessity for change in me and in those around me. I felt a sort of upswell of pain and energy towards a destruction of what I have been calling “the old ways”, (colonial-white-supremacist-cis-hetero…) systems of control, management, power and oppression. While I understand these ways are not old yet, naming them old has been a sort of practice of imagining a world without these gross systems of harm and violence. Imagining has been a space of moving through my fear.

Image: Still from video “if today never gives up on me” (video, 01:54), by Amina Ross. the still has a bright pink background with the phrase “I don’t want to manifest my fears.” Image courtesy of the artist.
Imagem: Quadro do vídeo  “if today never gives up on me” [“se o hoje nunca desistir de mim”] (01:54), de Amina Ross. A imagem tem um fundo rosa-choque com a frase “I don’t want to manifest my fears” [“Eu não quero manifestar meus medos”]. Imagem cortesia da artista.

Quando não consigo me mover através do meu medo, quando ele fica estagnado ou não pode ser expresso, já senti meus medos se manifestarem como doença no meu corpo, no meu estômago ou como infecções respiratórias, tosses doloridas e resfriados. Eu me vi ficando muito doente com muita frequência, empurrada ao limite de mim mesma pelo medo.

Isso ainda acontece hoje, mas com menor frequência; tenho coletado meios e ferramentas e formas de medicação, convencional e experimental, para me ajudar a me mover pelo medo. Também encontrei em meu trabalho artístico uma maneira de me mover além do meu medo, de processá-lo, de transformar (ou transmutar) internamente essa energia por meio de um processo de análise (frequentemente na forma de meditação) e de amor, e depois externalizar algo que com sorte é criativo e imaginativo. Desta forma, minha dor, medo ou ansiedade se tornam um portal para aquilo que mais valorizo. Eu acho que até agora, meu medo impede meu trabalho somente quando ele me paralisa, mas quando sou capaz de segurá-lo, de olhar pra ele e cuidar dele com as ferramentas que colecionei, meu medo se torna minha magia.

When I am unable to move through my fear, when it remains stagnant or isn’t allowed to be expressed, I’ve felt my fears materialize as illness in my body, in my stomach or through upper respiratory infections, painful coughs and colds. I found myself being very sick very often, pushed over the edge of myself by fear.

This happens now too, less often, I’ve been collecting skills and tools and forms of medicine, conventional and experimental, to help me move through it. I have also found my work to be a way to move through my fear, to process my fear, to internally transform (or transmute) this energy through a process of analysis (often in the form of meditation) and love and to then externalize something that is hopefully creative and imaginative. In that way my pain, fear, or anxiety becomes a portal into what I value most. I think so far, it has only been when my fear paralyzes me, that it impedes my work, but when I am able to hold my fear, to look at it and care for it with the tools I’ve collected, my fear becomes my magic.

Image: Installation shot from “when the water comes to light out of the well of myself,” Amina Ross. Image courtesy of the artist.
Imagem: Instalação “when the water comes to light out of the well of myself” [“quando a água vem à luz de dentro do poço de mim mesma”], Amina Ross. Imagem cortesia da artista.

Estava lendo um livro chamado The Body Keeps The Score [“O corpo conta os pontos”], de Bessel van der Kolk. Na introdução a autora fala sobre maneiras em que o trauma pode afetar nossa capacidade de imaginar. Eu penso muito sobre isso, e sobre a importância de praticar o imaginar e o sonhar. Meu trabalho com animação 3D, especificamente quando estimulo água no espaço virtual, me deu um exercício em imaginação, em ser capaz de determinar as condições físicas de um espaço com um programa, de estabelecer um estímulo de água dentro de um conjunto de condições físicas construídas e ver o que acontece. Esse processo tem me dado ao mesmo tempo um senso de controle e de abandonar o controle, que, penso, também está conectado com o processo de imaginar ou especular; há um equilíbrio entre abertura e intenção focada.

Gostaria de saber o que você faz com seu medo. O que imagina para seu futuro? Para o futuro daqueles que você ama? E se, e quando, há uma interseção entre essas coisas no seu trabalho artístico.

I was reading this book called The Body Keeps The Score, by Bessel van der Kolk. There’s a part of the introduction where the author talks about the ways that trauma has the ability to impact our capacity to imagine. I think about that a lot, and the importance of practicing imagining and dreaming. My work in 3D animation, specifically through simulating water in virtual space, has provided me with exercise in imagining, in being able to determine the physical conditions of a space through a program, to set a simulation of water into a set of constructed physical conditions and see what happens. This process has allowed me both a sense of control and releasing control, which I think is also connected to the process of imagining or speculating, there is a balance between openness and focused intention.

I am curious about what you do with your fear? What you imagine for your future? For the future of the people you love? And if and how these things may intersect with your work.

Image: João Oliveira, “aquela paisagem distante que você cruzou” [“that distant landscape you crossed,” metal engravings, 2018] uses projected shadows to create abstract silhouettes that resemble landscapes. Photo by Pablo Cordier.
Imagem: João Oliveira, “aquela paisagem distante que você cruzou” [gravuras em metal, 2018], de João Oliveira, usa sombras projetadas para criar silhuetas abstratas que lembram paisagens. Fotografia de Pablo Cordier.

João: Obrigado por compartilhar seus medos e angústias. Obrigado por ser uma artista e seguir se opondo a ceder ao que te assombra. Não estamos sozinhos em nossos medos porque o que faz sombra na gente, é o mesmo que escurece no outro. Acredito que essas sombras são importantes porque elas nos ajudam no processo de visão e partir delas podemos reconfigurar e reconstruir nossa percepção. No último ano tenho desenvolvido um trabalho que surgiu de um exercício de desenhar no escuro e pensar as formas que daí derivam…

A ideia não é decalcar uma silhueta, mas é pensar essas sombras como índices, autônomas, formas que reclamam algo que só é perceptível nesse jogo entre opacidade e transparência. Esse primeiro processo resultou numa série de gravuras em metal que se chama ‘aquela paisagem distante que você atravessou’, e coloca esse corpo não reconhecido em foco, numa tentativa de inventar(iar) a planície de um território que sua sombra imprime quando o mesmo se interpõe entre luz e papel. Um mapa impresso de sombras e clareiras encontradas em algum trajeto. Agora tenho trabalhado com borracha industrial e o processo, agora tridimensional, consiste em recortar nessa borracha e em outros tipos de plástico que tenho pesquisado, as formas surgidas dos desenhos… a ideia é que tudo isso se torne uma grande instalação. Também tenho pensado nos materiais que estou usando a partir dessa relação, como o carvão e o grafite, que são opacos, impermeáveis, adiáfanos; e o papel vegetal, transparente, translucido. Cheguei à conclusão que dando forma é que eu entendo, então acho que dar forma às minhas sombras, é um jeito meu de lidar com os medos…

João: Thank you for sharing your fears and anguishes. Thank you for being an artist and continuing to hold up against giving in to what haunts you. We are not alone in our fears because that which lays its shadow on us is that same that darkens in the other person. I believe these shadows are important because they help us in this process of vision, and through them we can reconfigure and rebuild our perception. In the past year, I began to develop a process of drawing in the dark and thinking up the forms that come from there…

It is not my intention to delineate a silhouette, but to think of these shadows as indexes, as autonomous, as forms that claim something that is only perceptible in this interplay between opacity and transparency.  This first process resulted in a series of metal engravings called ‘aquela paisagem distant que você atravessou’ [‘that distant landscape you crossed’], and it puts in focus this unrecognised body, in an attempt to invent(ory) a territory’s plain which its shadow imprints when it comes between light and paper. A printed map of shadows and clearings, found along some path. Lately, I have been working with industrial rubber and the process, now three-dimensional, consists in cutting, in this rubber and in other kinds of plastics I have been researching, the shapes that appear in the drawings … The idea is for all of this to become a big installation. I have also been thinking about the materials I am using with this relationship in mind, such as charcoal and graphite, which are opaque, impermeable, non-diaphanous; and then tracing paper, transparent, translucent. I have reached the conclusion that it is through giving form that I understand, so I think that giving form to my shadows is a way of dealing with my fears…  

Image: João Oliveira, “aquela paisagem distante que você cruzou” [“that distant landscape you crossed,” metal engravings, 2018] uses projected shadows to create abstract silhouettes that resemble landscapes. Photo by Pablo Cordier.
Imagem: João Oliveira, “aquela paisagem distante que você cruzou” [gravuras em metal, 2018], de João Oliveira, usa sombras projetadas para criar silhuetas abstratas que lembram paisagens. Fotografia de Pablo Cordier.

De qualquer maneira, logo mais poderemos conversar pessoalmente sobre todas essas questões porque você está vindo ao Brasil para o Perto de lá. Você já sabe o que pretende desenvolver aqui durante a residência, quais as suas expectativas? Quero saber de tudo.

Amina: Também quero saber de tudo! Além disso, estou intencionalmente deixando muito do meu trabalho para ser definido quando estiver aí. Eu também estou animada para te conhecer pessoalmente. No momento, tenho algumas obsessões e curiosidades. Pretendo pesquisar e coletar videogravações das águas. Visitar igrejas. Embora não saiba exatamente o que vou explorar, há alguns assuntos que me interessam: os sonhos, a água, a meditação, o movimento. Me interessa a arquitetura física e metafísica do espaço sagrado, e a relação entre a sacralidade e a imagem cinemática. A reverência aos ancestrais e Iemanjá, dentro de um contexto filosófico. Também a minha própria conexão familiar com a coletividade, devoção, e prática de espiritualidade ioruba-diaspórica.

Nos vemos em breve!

Anyway, we will soon be able to talk in person about all of these issues, because you’re coming to Brazil for “Perto de Lá / Close to There” Do you already know what you intend to work on during the residency? What are your expectations? I want to know everything.

Amina: I want to know everything too! I am also intentionally leaving much of my work to be determined while I am there. I too am excited to meet in person. In this moment I have a few hauntings and curiosities. I’m planning on researching, gathering footage of water, and visiting churches, among other things. Although I don’t know exactly what I will be exploring, there are a few subjects that interest me. I’m interested in dreams, meditation, and ancestor reverence. I am investigating the relationship between sacredness and the moving image, and the physical and metaphysical architecture of sacred space. I’m also interested in the orisha Yemanja, within a philosophical context, and in exploring my own family connection to collectivity, worship, and the practice of Yoruba-diasporic spirituality.

I’ll see you soon!

Imagem em Dastaque: Quadro de “Etheric Bridge (Winter’s Grief)” [“Ponte etérea (Mágoa de inverno)”]. Imagem cortesia da artista.

Featured Image: Still from “Etheric Bridge (Winter’s Grief),” by Amina Ross. Image courtesy of the artist.


Marina Resende Santos é editora convidada de uma série de conversas entre participantes de “Perto de Lá <> Close to There”, um programa de intercâmbio de artistas entre Salvador e Chicago, organizado pelos projetos culturais Comfort Station (Chicago), Projeto Ativa (Salvador) e Harmonipan (Cidade do México e Salvador), entre 2019 e 2020. Marina é graduada em literatura comparada pela University of Chicago e trabalha com programação artística e cultural em diferentes organizações em Chicago. Suas entrevistas com artistas e organizadores foram publicadas nas plataformas THE SEEN, South Side Weekly, Newcity Brazil, e Lumpen Magazine.

Marina Resende Santos is a guest editor for a series of conversations between participants of “Close to There <> Perto de Lá”, an artist exchange program between Salvador, Brazil and Chicago organized by Comfort Station (Chicago), Projeto Ativa (Salvador) and Harmonipan (Mexico City) between 2019 and 2020. Marina has a degree in comparative literature from the University of Chicago and works with art and cultural programming in different organizations in the city. Her interviews with artists and organizers have been published on THE SEEN, South Side Weekly, Newcity Brazil, and Lumpen magazine.