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Perto de Lá < > Close to There: Adriana Araujo and Josh Rios in Conversation

Esta entrevista foi editada para garantir clareza e comprimento, e foi traduzida para nossos leitores no Brasil com as seções em português em itálico, e em inglês em tipo normal.

Adriana Araujo: Gostaria de começar nosso encontro pelo meio, esse tempo aqui agora, nos constituindo continuamente.  Estou neste momento ao lado de uma árvore a quem chamo de Generosa, é uma mangueira do quintal da casa que vivo, que dá frutos suculentos e doces, ela abriga pássaros, lagartixas, morcegos, formigas, entre outros seres vivos, alguns invisíveis. Além de abrigar um mundo inteiro em si, Generosa produz sombra e ameniza o calor nos dias ensolarados da cidade que vivo faz pouco menos de cinco anos, Santa Maria da Vitória. Aqui quase todos os dias (às vezes penso que as noites também) são de sol intenso. O céu hoje amanheceu parcialmente nublado, mas quase sempre o céu é bem azul. Quando sinto muita saudade de Salvador, o lugar onde nasci e vivi a maior parte da minha vida, é só olhar para o céu e me inventar mais perto do mar. Pelo azul a gente quase acredita que o mar está logo adiante, mesmo estando a 930 km de distância, e com viagens somente por terra, por estradas não muito bem cuidadas pelo Estado, o que acrescenta mais 600 km ao percurso. Aqui, boa parte do ano há poucas nuvens no céu, então, vez ou outra surge uma pequena nuvem parecendo um tufo de algodão, comparada não somente à textura de algodão, mas também ao tamanho de um tufo de algodão. Outras épocas as nuvens junto com o sol, produzem um verdadeiro espetáculo nos fins de tarde; um espetáculo, Josh, as nuvens em chamas, nos finais de tarde daqui. Estou no extremo oeste da Bahia, uma região de transição entre biomas da caatinga e do cerrado. Aqui não há somente nuvens de algodão, mas também fazendas inteiras que produzem monoculturas de algodão e soja, fazendas subsidiadas com recursos públicos sob o pressuposto falacioso de ganho econômico e social, massivamente divulgado em rede pública de televisão, mas o que acompanhamos de perto é o aumento da pobreza e da desigualdade.

This interview has been edited for clarity and length, and translated for our readers in Brazil with the Portuguese sections in italics, and the English sections unitalicized.

Adriana Araujo: I would like to start our encounter from the middle, from this time of here and now, constituting ourselves continuously. At this very moment, I am sitting beside a tree which I call Generosa [‘Generous’]. It is a mango tree at the house where I live that gives juicy and sweet fruit, shelters birds, lizards, bats, and ants; among other living beings, some invisible. Besides containing a whole world in itself, Generosa gives shade and mitigates the heat on sunny days in the town where I have lived for a little less than five years, Santa Maria da Vitória. Here, we have intense sun almost every day (sometimes I think the evenings too). The sky dawned today partially cloudy, but most days the sky is very blue. When I miss Salvador, the city where I grew up and spent most of my life, too much, I just need to look up to the sky and invent myself closer to the sea. By the blue we almost believe that the sea is right ahead, even though we are 930 kilometers away, accessible only by land, by roads that are not well-kept by the State, adding 600 kilometers more to the route. Here, for a good part of the year there are few clouds in the sky, until every once in a while a cloud appears like a ball of cotton, not just the texture but also the size of a cotton ball. At other times, clouds and the sun together make up a spectacle at the end of the afternoon. A spectacle, Josh: the clouds aflame, at every sunset around here. I am in the far west of Bahia, a transitional region between two biomes, the caatinga and the cerrado. There aren’t only cotton clouds around here, there are also entire farmlands that grow monocultures of cotton and soy, farms that are subsidized with public resources under the fallacious presumption of social and economic gains, massively divulged in public TV networks, while what we see up close is an increase in poverty and inequality.

Image: Artist and educator Adriana Araújo. Photo by Paula Isabella.
Imagem: Artista e educadora Adriana Araújo. Foto por Paula Isabella.

Ainda é possível às sextas-feiras comprar produtos da agricultura familiar, na feirinha da cidade de São Félix do Coribe, do outro lado do Rio Corrente, que, neste ponto em que estou esse afluente do rio São Francisco, ainda é um belo rio passado por duas cidades.  A feirinha é um momento alegre, de encontrar as pessoas que plantam alimentos e encontrar alguns alimentos livres de agrotóxicos. Estamos também em uma região em processo agressivo de devastação. Pesquisas recentes divulgaram que a água que bebemos é uma das mais contaminadas por veneno na Bahia, os cursos dos rios têm sido desviados para irrigar as plantações dos grandes fazendeiros e latifundiários que ainda utilizam métodos dos mais arcaicos de apropriação de territórios aqui no Brasil, avançam com o extermínio da fauna, da flora e das populações tradicionais. Pois então: vim parar aqui porque acredito no poder transformador da arte e da educação, sobretudo, na potência das nossas ações. Estamos cultivando aqui uma universidade; eu trabalho em um curso que forma futuros professores de arte. Alguns dos estudantes egressos já estão atuando como professores em escolas públicas da região e isso tem nos dado uma energia imensa. Ainda estou descobrindo esse lugar, através do desejo de construir formas de viver. Criar formas de viver é o que me interessa como arte.

Josh, você poderia falar-me um pouco sobre o seu aí e agora?

It is still possible to buy products from family farmers on Fridays at the street fair in São Félix do Coribe, across the Corrente river. At this point where I am, this affluent of the great São Francisco river is still a beautiful river cutting across two towns. The street fair is a joyful time for meeting people who plant foods and finding some foods produced without pesticides. We are also in a region going through aggressive deforestation. Recent research has shown that the water we drink is one of the most contaminated by pesticides in Bahia. The courses of rivers have been altered to water the crops of big farmers and landowners who still use the most archaic methods of land appropriation in Brazil, pushing ahead with the extermination of local fauna, vegetation, and traditional populations. So, I ended up here because I believe in the transformative power of art and education, and, above all, in the potential of our actions. We are cultivating a university here; I work in a programme that brings up future art teachers. Some graduates of the program have already started working as teachers in public schools in the region, and that has given us immense energy. I am still discovering this place through the desire to build ways of living. Creating ways of living is what interests me in art.

Josh, could you tell me a little bit about your here and now?

Image: Josh Rios at Ativa Atelier, Salvador, Brazil, February 2020. Photo by Marina Resende Santos.
Imagem: Josh Rios no Ativa Atelier, em Salvador, Brasil, fevereiro de 2020. Foto por Marina Resende Santos.

Josh Rios: Meu aqui e agora é um pouco distópico, para ser honesto–mas quando é que os Estados Unidos não foram distópicos, para aqueles de nós que foram feitos matáveis a serviço do colonialismo de ocupação ou do tráfico transatlântico de escravos? Este é um tempo e um lugar pontuado pelos julgamentos do impeachment do presidente, que funcionam como evento midiático surreal e como crise política com efeitos materiais, especialmente para os mais desapossados entre nós. Meu aqui e agora é caracterizado por tiroteios em massa, por violência policial impune, pelo crescimento do nacionalismo branco, pelo planejamento urbano racializado, por centros de detenção onde crianças de migrantes compulsórios são separadas de seus pais na fronteira entre os EUA e o México–uma prática que está levando à negligência, abusos, e morte.

A xenofobia está em todos os lugares; as notícias são falsas. Escolas públicas estão desinvestidas, as pessoas estão incapacitadas pela dívida, e a privatização é imaginada como a solução para todo problema social. Os políticos veem a si mesmos não como servidores públicos, mas como moguls imobiliários cuja ideia de política social é ou a gentrificação, ou a produção de riqueza pela extração de aluguéis, tudo a custo das comunidades pretas e pardas, e dos pobres.

Josh Rios: My here and now is a bit dystopic, to be honest — though when was the United States ever anything but dystopic for those of us who were made killable in the service of settler colonialism or the transatlantic slave trade? This is a time and place punctuated by the current presidential impeachment hearings, which function as both a surreal media event and political crisis with material effects, especially for the most disaffected and dispossessed among us. My here and now is characterized by mass shootings, unchecked police violence, the emboldened rise of white nationalism, radicalized urban planning, detention sites where the children of forced migrants are separated from their parents at the U.S.-Mexico border–a practice leading to neglect, abuse, and death.

Xenophobia is everywhere; the news is fake. Public schools are defunded; people incapacitated by debt; privatization is imagined as the solution to every social problem. Politicians envision themselves, not as public servants, but as real-estate moguls whose idea of social policy is either gentrification or the production of wealth through rent extraction, everything at the expense of Black and Brown communities, and the poor.

Image: “Is Our Future A Thing of The Past?”, a provisional archive of vernacular culture related to Chicanafuturism and Chicanx imaginations of the future. Shown at the Nerman Museum of Contemporary Art, Blue Star Contemporary and Bemis Center for Contemporary Art as part of the exhibition Monarchs: Brown and Native Contemporary Artists in the Path of the Butterfly, 2019.
Imagem: “Is Our Future A Thing of The Past?” [“Nosso futuro é coisa do passado?”], um arquivo provisorio de cultura Chicanafuturista e imaginarios chicanxs do futuro. Instalado no Nerman Museum of Contemporary Art, Blue Star Contemporary e no Bemis Center for Contemporary Art como parte da exposicao Monarchs: Brown and Native Contemporary Artists in the Path of the Butterfly, [“Monarcas: Artistas contemporâneos pardos e nativos na rota da borboleta”], 2019.

Ao mesmo tempo, o meu “aqui” e “agora” são também o “lá” e o “então”, quer dizer, eu sou do meu tempo e espaço mas também sou constituído pela história e pelas correntes de interação global. Não existe um “aqui” isolado e nenhum “agora” a-histórico. Eu vejo local e tempo como palimpsestos heterotemporais. Há muitos “aquis” e “agoras” inscritos em cada lugar ou momento. Meu aqui e agora também é pedagógico, como membro do corpo docente de baixo status na Escola do Instituto de Arte de Chicago (uma das escolas de arte mais caras do país). Eu estou num constante estado de conflito, enquanto negocio a ética da minha relação com estudantes, outros professores, variadas instituições de arte, e conceitos maiores, como a comodificação da criatividade e a neoliberalização da diversidade e da inclusividade.

At the same time, my “here” and “now” is also a “there” and “then,” meaning I am of my time and place but also constituted by history and global chains of interaction. There is no isolated “here” and no ahistorical “now.” I see site and time in terms of heterotemporal palimpsests. There are many “heres” and “nows” inscribed in every place or moment. My here and now is also pedagogical as a faculty member with minimal status at the School of the Art Institute of Chicago (one of the most expensive art schools in the country). I am in a constant state of confliction, as I negotiate the ethics of my relations to students, other faculty, various art institutions, and larger concepts, like the commodification of creativity and the neoliberalization of diversity or inclusion.

Image: Ambulant soundsystem used in “Not Peaceable and Quiet” by Josh Rios. St. Louis, MO 2018.
Imagem: Sistema de som ambulante usado em “Not Peaceble and Quiet,” de Josh Rios, em St. Louis, Missouri 2018.

E através de tudo isso, eu me esforço para transformar, para perturbar modos normalizados de pensamento, para usar a criatividade para propor novas perguntas e questionar interpretações comuns de cultura e poder. A crítica e a criatividade acenam uma à outra através do terreno semiótico da diferença e da similaridade, em direção ao qual me afino e espero transmitir a meus alunos. Mas os alunos tem seus próprio problemas; e seus futuros são mais incertos do que nunca. Como um cidadão estadunidense de ascendência mexicana, eu me ocupo muito com a fronteira entre EUA e México como uma zona de contato, como tecnologia biopolítica e como espaço discursivo, apesar do meu afastamento físico ao viver no meio-oeste, em Chicago. A fronteira e a zona fronteiriça parecem distantes e próximas ao mesmo tempo.

Quanto à troca intercultural e ao diálogo transnacional, gostaria de ouvir mais sobre o papel que a arte e a criatividade desempenham na criação de novos tipos de política e espaços sociais. Estou muito curioso para ouvir mais sobre a universidade que você está cultivando, qual o aspecto deste cultivo, e como você o vê transformar relações ou envolvimentos sociais.

And through all this, I strive to transform, to disrupt normalized modes of thinking, to use creativity to pose new questions and challenge commonplace interpretations of culture and power. Critique and creatively hail each other across the semiotic terrain of difference and similarity, which I attune myself to and hope to transmit to students. But students have their own problems; and their futures are more uncertain than ever. As a Mexican-heritage U.S. citizen, I am very concerned with the U.S.-Mexico border as a contact zone, bio-political technology, and discursive space, despite my physical removal from it while living in the Midwest in Chicago. The border and borderlands feel close and far at the same time.

Regarding intercultural exchange and transnational dialogue, I am excited to hear more about the role art and creativity play in the creation of new kinds of politics and social spaces. I would be very curious to hear more about the university you are cultivating, what that cultivation looks like, and how you see it transforming social relations or engagements.

Image: “Jardim Coatí,” intervention by Adriana Araújo at the Coaty House, designed by Lina Bo. Salvador, Brazil, 2016. Photo courtesy of the artist.
Imagem: “Jardim Coatí,” intervenção de Adriana Araújo no Coaty, casa desenhada por Lina Bo em Salvador, Brazil, 2016. Foto cortesia da artista.

Adriana: Para a primeira pergunta: Josh, seu relato é uma descrição muito próxima do que vivemos aqui, ao sul, e revela as muitas similitudes das nossas experiências distópicas.  A distopia é uma forma de amolar a lâmina perceptiva. Mas, acredito que para além do anúncio do fim do mundo, precisamos criar uma necessidade insurgente de “adiar o fim do mundo”, como propõe o líder indígena Ailton Krenak. Ele diz que para adiar o fim do mundo precisamos usar nossa capacidade crítica e criativa para construir paraquedas. Vejo o papel da arte aí, nesta construção dos paraquedas, feitos não no sentido de abrandar a queda, mas para nos ajudar a não sucumbir nesse contínuo despencar no abismo. Não sucumbir nos impõe sorrir, comer, dançar, amar, revoltar-se, manifestar-se, não permitir a aplicação de anestesias gerais em nossos corpos.  Foi o que Hélio Oiticica apreendeu com a comunidade do Morro da Mangueira e que fez despontar os parangolés, vestiduras que solicitam ativa participação, criadas a partir da alegria viva de corpos da favela, em sua maioria corpos negros. Para mim, é neste sentido que a arte e a criatividade desempenham um papel na criação de novos tipos de política e espaços sociais: precisamente quando solicita, ou melhor, provoca, uma ativa participação e invenção de modos de ser e estar no mundo.

Adriana: To the first question: Josh, the story you are telling is a very close description of what we live here, in the South; it reveals the many similarities between our dystopian experiences. Dystopia is a way to whet the perceptive blade. But I believe that beyond announcing the end of the world, we must create an insurgent need to “postpone the end of the world,” as the indigenous leader Ailton Krenak proposes. He says that in order to postpone the end of the world we must use our critical and creative capacity to build parachutes. That is where I see the role of art, in the construction of parachutes, made not to soften the fall, but to help us not to succumb in this continual fall into an abysm. Not succumbing to mandates that we smile, eat, dance, love, revolt, manifest, that we not allow the application of general anaesthesia in our bodies. That is what Helio Oiticica learned from the Morro da Mangueira community and what led him to make the “parangoles,” garments that require active participation, created from the living joy of the bodies in the favela, for the most part Black bodies. For me, it is in this sense that art and creativity perform a role in the creation of new forms of politics and social spaces, precisely when it requires, or rather, when it provokes active participation and the invention of ways of being in the world.

Image: “des I pref” (mixed media; plastic, ceramics) earned 1st prize at the Salão de Belas Artes da Bahia 2011-2012. Photo by Adriana Araújo. / / Photo by Van Cordeiro.
Imagem: “des I pref” (plastico, ceramica) recebeu o primeiro prêmio no Salão de Belas Artes da Bahia de 2011-2012. Foto de Adriana Araújo. / / Foto de Van Cordeiro.

Para a segunda pergunta: A Universidade Federal do Oeste da Bahia foi criada em 2013, no governo da presidenta Dilma Rousseff, dentro do projeto de expansão e interiorização das universidades públicas federais no Brasil. Em 2014 foi implantado o curso de Licenciatura em Artes Visuais do Centro Multidisciplinar de Santa Maria da Vitória. Das cinco unidades universitárias em diferentes cidades da região, o campus de Santa Maria foi resultante das reivindicações de movimento populares por uma instituição de ensino superior público no Território da Bacia do Rio Corrente.

Estar em uma universidade pública, gratuita e interiorizada caracteriza uma distinção em relação às nossas realidades pedagógicas, por enquanto, já que as Universidades e Institutos Federais no Brasil estão passando por inúmeros ataques produzidos pelo atual governo e estão sobre forte ameaça de privatização, seguindo um modelo comprovadamente fadado ao fracasso, como você nos descreve.  Lidar com essa iminência de desaparecimento das instituições públicas de ensino superior e com uma falta de perspectiva política ao tempo em que precisamos dar conta do nosso trabalho anuncia um importante aspecto do cultivo: resistir.

Outro importante aspecto do cultivo desta universidade, penso, está em desconstruir a ordem eurocêntrica do conhecimento. Sinceramente, ainda não sei em que medida nós temos conseguido produzir os desvios necessários para isso, já que essa tarefa exige um exercício de desaprender as certezas estabelecidas e de oposição às posições coloniais cravadas em nossa cultura. Para o cultivo é preciso subverter em muitos pontos a própria ideia de universidade. As ações conjuntas com os estudantes, com outros professores e com a comunidade, nos ensinam sobre a complexidade e as singularidades desse território, e muito sobre as urgências do mundo. Esse vivo contato, que é a parte essencial do cultivo, nos faz investir com mais intensidade na arte e a educação como ativadoras da nossa capacidade criativa, dos modos de pensar e agir. A arte pode funcionar como agente modificador dos equívocos modos tradicionais de educação que ainda estão a serviço da manutenção e imposição das demandas de um sistema opressor. É nesse sentido que o cultivo tem um grande potencial. Precisamos descobrir mais sobre a reinvenção da educação por meio da arte, para a educação ser outra coisa e a arte também.

To your second question: the Universidade Federal do Oeste da Bahia [‘Federal University of the West of Bahia’] was created in 2013, during the government of president Dilma Rousseff, as part of an expansion to bring public universities to rural, inland areas of Brazil. The visual arts program was established in 2014 at the Multidisciplinary Center in Santa Maria da Vitória. Out of five university units in different towns in the region, the Santa Maria campus was the result of popular movements’ demands for public higher education in the Rio Corrente basin territory. 

Being in a public, free-of-charge, inland university is a distinct position in the context of our pedagogical realities, since universities and federal institutes [secondary professional schools] in Brazil are going through many attacks promoted by the current government, and are under serious threat of privatization, following a model that is proven to lead to failure, as you described. Dealing with the imminent disappearance of public education institutions and with a lack of good political prospects at the same time that we must carry on with our work announces an important aspect of this cultivation: resistance. 

Another important part of cultivating this institution, I believe, is a deconstruction of the Eurocentric order of knowledge production. Honestly, I still don’t know to what extent we have been able to produce the necessary breaches for that, since our task requires the exercise of unlearning established certainties and opposing colonial positions that are entrenched in our culture. In order to cultivate it is necessary to subvert in many junctures the idea of the university itself. Collaborative actions with students, with other professors and with the community teach us about the complexities and singularities of this region, and a lot about the urgent needs of the world. This living contact, which is the essential element of this cultivation, makes us invest more intensely in art and education as activators of our creative capacity and of our modes of thinking and acting. Art can work as an agent of change in problematic traditional forms of education that still serve the maintenance and imposition of the demands of an oppressive system. It is in this sense that the process of cultivation has a lot of potential. We need to find out more about the reinvention of education through art, so that education can be different—and so can art.

Image: “Um/múltiplo,” mail art postcards by Adriana Araújo, 2016. The postcards in “Um/múltiplo” show images from a brick kiln in Cuscuzeiro, a rural district of Santa Maria da Vitória, Bahia [where Adriana Araujo teaches at UFOB]. Photos by Adriana Araújo. Images courtesy of the artist.
Imagem: “Um/múltiplo,” cartões de arte postal por Adriana Araújo, 2016. Os cartões postais em “Um/múltiplo” mostram imagens de uma olaria em Cuscuzeiro, zona rural de Santa Maria da Vitória, Bahia, Brazil, onde Adriana Araújo leciona na UFOB. Imagens cortesia da artista. Fotos de Adriana Araújo. Imagens cortesia da artista.

Neste momento, vejo este cultivo como movimento de criação de possibilidades. Posso afirmar que há alguns indícios de uma cultura universitária diferente da que vivi quando estudante na capital da Bahia. Ainda temos poucos professores negros no quadro docente, mas boa parte dos nossos estudantes são filhos ou netos de trabalhadoras e trabalhadores rurais, e num histórico de desigualdade social sistêmica, isso aponta para algum sentido de liberdade. Quando alguém inicia um projeto para o semestre letivo sobre o seu quintal, repleto de plantas medicinais, ou sobre manifestações culturais locais–em vias de desaparição, junto com seus idealizadores anciãos–, é possível fortalecer um olhar da comunidade sobre si mesma e intensificar a força desse lugar como espaço de resistência. Com isso, as velhas estruturas de dominação são desafiadas, sacudidas. Nos encontros em viagens de campo e projetos de extensão, nos juntamos para ver, dizer, fazer, acessar situações que nos são muito próximas, mas que nunca concebemos pensar de outras maneira. Nestes momentos percebemos aquela faísca que acende como quando atritamos algumas pedras para produzir energia.

Josh, vi alguns dos seus trabalhos, que me fizeram pensar sobre a relação do Brasil com o passado, em especial sobre as questões raciais, e também sobre o futuro, que para muitos de nós nunca chega, exatamente pela relação mal resolvida com nosso passado. Gostaria de saber mais sobre seu processo de criação e sobre o jogo que você produz entre uma racionalidade ficcional e uma realidade histórica e social. Por fim, gostaria de ler sobre os atravessamentos entre sua prática pedagógica e artística.

At this moment, I see this cultivation as a movement to create possibilities. I can assert that there are some indications of a different university culture from that which I lived as a student in the capital city of Bahia [Salvador]. There are still too few Black professors in our faculty, but a large part of our students are children or grandchildren of agricultural workers, and within a history of systemic social inequality, this points to some sense of freedom. When someone begins a term project about their backyard, which is full of medicinal plants, or about local cultural forms—which are on their way to disappearance—together with their elderly idealizers -, it is possible to strengthen a community’s view of itself and to intensify the force of this place as a space of resistance. And with that, the old structures of domination are challenged, shaken up. In our field trips and extension projects, we get together to see, say, make, and access situations that are very close to us, but that we never consider thinking in different ways. In those moments we notice a space that lights up, as when we rub stones to produce energy.

Josh, I saw some of your works, and they made me think about Brazil’s relationship with the past, especially racial questions, and also with the future, which, for many of us, seems to never come precisely due to an ill-resolved relationship with our past. I would like to know more about your creative process and about the interplay you produce between a fictional reality and a historical and social reality. Finally, I would like to know more about the crossovers between your pedagogical and your artistic practices.

Image: “Is Our Future A Thing of The Past?”, a provisional archive of vernacular culture related to Chicanafuturism and Chicanx imaginations of the future. Shown at the Nerman Museum of Contemporary Art, Blue Star Contemporary and Bemis Center for Contemporary Art as part of the exhibition Monarchs: Brown and Native Contemporary Artists in the Path of the Butterfly, 2019.
Imagem: “Is Our Future A Thing of The Past?” [“Nosso futuro é coisa do passado?”], um arquivo provisorio de cultura Chicanafuturista e imaginarios chicanxs do futuro. Instalado no Nerman Museum of Contemporary Art, Blue Star Contemporary e no Bemis Center for Contemporary Art como parte da exposicao Monarchs: Brown and Native Contemporary Artists in the Path of the Butterfly, [“Monarcas: Artistas contemporâneos pardos e nativos na rota da borboleta”], 2019.

Josh: De muitas maneiras, me vejo como historiador cultural, mas um historiador tanto interessado em sonhar e envisionar, como em ler e pesquisar. Sou um historiador que valoriza o escrever lado a lado com o imaginar e que enxerga as limitações da história e as lacunas no arquivo como um convite para sonhar a transformação social através da criatividade. Também considero a história como parte do domínio público, os “commons,” que é um aspecto de posse coletiva da nossa realidade social e que é colaborativamente produzido dentro de um campo de poder. Esse tipo de pesquisa-como-sonhar e história-como-visão nos permite trazer novas maneiras de ser e estar no presente e de imaginar o futuro, assim como novas maneiras de ver os acontecimentos do passado como sempre presentes. Há uma qualidade heterotemporal profundamente enredada em nossas realidades e experiências (uma mistura infinitamente complexa), que o capitalismo tenta estridentemente desmembrar. É claro que o passado não é recuperável, o que o torna de certa forma radicalmente ido, o que é a condição primária da história como narrativa escrita. Essa condição geral da história é o motivo pelo qual acho que sonhar é tão útil para preencher a aporia e imaginar novas maneiras de ser que desafiem as normas e narrativas dominantes.

O historiador cultural Peter Burke notou que a história costuma ser escrita pelos vencedores, mas também que são os vencedores que tem o privilégio de esquecer o passado, enquanto os perdedores da história contemplam continuamente todo o potencial perdido e todos os futuro erradicados pelo colonialismo de ocupação e o capitalismo. Aqueles que foram feitos perdedores da luta política veem a história destes passados violentos em todo lugar; eles são sempre-presentes, mas apenas nas margens, nunca na narrativa dominante. Nos Estados Unidos, há uma forma insidiosa e voluntária de amnésia política, cultural e histórica que é empregada em momentos-chave a fim de apagar e diminuir as violências que deram forma a este país. Ao mesmo passo em que os Estados Unidos são um Estado-nação moderno, eles são perpetuamente assombrados por esse passado violento, como sugerem os teoristas críticos de questões raciais Eve Tuck e C. Ree. Eu penso no meu trabalho como parte dessa assombração, esse perpétuo retorno do passado ao presente–uma interpretação e re-contação contínuas do passado através do desenvolvimento de abordagens políticas e filosóficas.

Josh: In many ways I see myself as a cultural historian, but one who is equally as interested in dreaming and visioning as in reading and researching. I’m one who values writing alongside imagining and who sees the limitations of history and the gaps in the archive as an invitation to dream social transformation through creativity. I also consider history to be part of the commons, a collectively owned aspect of our social reality that is collaboratively produced within a field of power. This research-as-dreaming or history-as-vision allows one to bring forth new ways of being in the present and imagining the future, as well as new ways of seeing the events of the past as always present. There is a deeply woven heterotemporal quality to our realities and experiences (an infinitely complex mixture) that capitalist time has stridently sought to pull apart. Of course, the past is not recuperable, making it radically gone in a way, which is the primary condition of history as a written narration. This general condition of history is why I think dreaming is so useful to fill in the aporia and imagine new ways of being that challenge dominant norms and narratives. 

Cultural historian Peter Burke noted that history is often written by the victors, but also that it is the victors who have the privilege of forgetting the past, while history’s losers continuously contemplate all the lost potential and all the futures erased by settler colonialism and capitalism. Those who have been made the losers of political struggle see the history of these violent pasts everywhere; they are ever-present, but only in the margins, never in the dominant narrative. In the U.S. there is a willful and insidious form of political, cultural, and historical amnesia that is deployed at key moments in order to erase and downplay the violences that have shaped this country. At the same time that the U.S is a modern nation-state, it is perpetually haunted by its violent past, as critical race theorist Eve Tuck and C. Ree have suggested. I think of my work as part of this haunting, this perpetual return of the past to the present—an ongoing interpretation and re-telling of the past through developing political and philosophical frameworks.

Image: Set-up for performance presentation part of “Not Peaceable and Quiet,” by Josh Rios. St. Louis, MO 2018.
Imagem: Mesa de palestra performativa, parte de “Not Peaceable and Quiet,” de Josh Rios, em St. Louis, Missouri, 2018.

Pedagogia e práticas criativas estão interligadas. Para mim, a pedagogia não tem o único objetivo de transferir especialidades–e não considero lecionar como uma inscrição de informação finalizada sobre estudantes passivos, o que Paulo Freire criticou como o “modelo bancário” de educação. É mais sobre criar oportunidades para construir campos de entendimento através do compartilhamento e colaboração. Enquanto procuro, sim, expandir a compreensão dos estudantes acerca dos vários contextos e assuntos que preocupam artistas contemporâneos, meu principal objetivo é criar um ambiente onde estudantes gerem suas próprias motivações e relacionamentos críticos bem-informados com discursos, teorias e histórias atuais. Essa é uma maneira desafiadora de operar, dada a maneira como a economia neoliberal afetou a educação superior, transformando-a de um caminho para o pensamento crítico em um produto que deve ter resultados mensuráveis e quantificáveis. Mas como se pode medir a conscientização, politização, e os efeitos de uma busca para transformar a esfera social através de práticas tanto ativistas como culturais?

Com relação ao Perto de Lá, gostaria de ouvir sobre como você entrou no programa, e quais têm sido os resultados dessa troca para você, como artista ou ativista.

Pedagogy and creative practices are intertwined. For me, pedagogy is not about transferring expertise—and I do not consider teaching to be an inscription of finalized information onto passive students, what Paulo Freire has criticized as the “banking model” of education. It is more about creating opportunities to construct fields of understanding through sharing and collaboration. While I seek to expand students’ understanding of the various contexts and concerns that occupy contemporary artists, my principal goal is to create an environment where students generate their own motivations and informed critical relationships to ongoing discourses, theories, and histories. This is a challenging way to operate given the way that neoliberal economics has impacted higher education, transforming it from a pathway to critical thought into a product that should have measurable and quantifiable outcomes. But how does one measure consciousness raising, politicization, and the effects of seeking to transform the social sphere through both activists and cultural practices? 

As far as the Close to There exchange program is concerned, I would be interested to hear how you became involved and what the outcomes of the cultural exchange have been like for you as an artist or activist.

Image: “Terreiro Gambiarra: ações imprevistas e desprogramadas,” [Makeshift Yard: unpredicted and unprogrammed actions] an environmental intervention led by Adriana Araújo with her class at UFOB, Santa Maria da Vitória, Bahia, May 2017. Photo by Adriana Araújo.
Imagem: “Terreiro Gambiarra: ações imprevistas e desprogramadas,” intervenção ambiental de Adriana Araújo em Santa Maria da Vitória, Bahia, maio de 2017. Foto de driana Araújo.

Adriana: É. Essa lógica imposta, do consumo ou do produto como fundamento das nossas relações, produz muito do empobrecimento das nossas experiências de vida, não é?

Sobre o projeto Perto de Lá, entrei no programa a convite da artista e curadora Lanussi Pasquali. Fiquei muito entusiasmada com a proposta de viajar com outros artistas de Salvador e fazer uma imersão na cidade de Chicago, conhecer pessoas e o desenvolvimento de seus trabalhos, viver a experiência do deslocamento/viagem que considero sempre muito desafiadora. O encontro “Perto de Lá” me provocou profundamente. Acho que os resultados têm muito do sentido da nossa conversa, de suscitar reflexões, e penso que esse é um bom começo.

E você, quais os seus planos e expectativas sobre a experiência Perto de Lá em Salvador?

Josh: Meu plano realmente é aprender o máximo que puder sobre a maneira como os artistas se sustentam aqui, e prestar especial atenção a modos alternativos de produção cultural, isto é, alternativas para instituições sancionadas pelo Estado, como museus. Outros modelos de dar espaço a arte, música, e pensamento crítico são o meu mais intenso interesse, e eu sinto que tenho muita sorte de ter a oportunidade de testemunhar outras formas de ser. Vamos visitar arquivos, participar de performances improvisacionais, e aproveitar a companhia dos artistas que participaram da troca e vieram a Chicago. Minha expectativa é ficar impressionado e admirado com a criatividade e o pensamento crítico aos quais serei exposto pela comunidade artística de Salvador.

Adriana: Yes. The imposed logic of consumption and product as the basis of our relationships causes an impoverishment of our life experience, doesn’t it?

About “Perto de Lá,” I was invited to join the program by artist and curator Lanussi Pasquali. I was excited about travelling with other artists from Salvador and having an immersive experience in Chicago—getting to know people and the way they build up their work, living this experience of displacement or travel that I always regard as very challenging. The encounters in “Perto de Lá” stirred me deeply. I think the results have been much like this conversation, inciting reflections, and I think that that is a good start.

How about you, what are your plans and expectations for “Perto de Lá” in Salvador?

Josh: My plans are to really learn as much as I can from the way that artists thrive there, and to pay special attention to alternative modes of cultural production, alternatives to state-sanctioned institutions, museums in particular. Other models of making space for art, music, critical thinking are my most intense interests, and I feel very fortunate to have the opportunity to witness other ways of being. We will be visiting archives, participating in improvisational performances, and enjoying the fellowship of the artists who participated in the exchange and visited Chicago. I expect to be impressed and continuously humbled by the creativity and critical thinking I will be exposed to by the arts community in Salvador.


Imagem em Dastaque: Adriana Araújo (centro) dança entre participantes do “Experimento Oiticica,” inspirado pelos “Parangolés” de Hélio Oiticica, parte do projeto “Terreiro Gambiarra,” realizado por Araújo com estudantes da UFOB em Santa Maria da Vitória, Bahia, agosto de 2017. Foto de  Monica Navarro.

Featured Image: Adriana Araújo (center) dances among participants of “Experimento Oiticica” [“Oiticica experiment”], an activity inspired by Helio Oiticica’s “Parangoles,” part of the workshop “Terreiro Gambiarra,” led by Araújo with her class at UFOB, Santa Maria da Vitória, Bahia, August 2017 Photo by Monica Navarro.


Marina Resende Santos is a guest editor for a series of conversations between participants of “Close to There <> Perto de Lá”, an artist exchange program between Salvador, Brazil and Chicago organized by Comfort Station (Chicago), Projeto Ativa (Salvador) and Harmonipan (Mexico City) between 2019 and 2020. Marina has a degree in comparative literature from the University of Chicago and works with art and cultural programming in different organizations in the city. Her interviews with artists and organizers have been published on THE SEEN, South Side Weekly, Newcity Brazil, and Lumpen magazine. 

Marina Resende Santos is a guest editor for a series of conversations between participants of “Close to There <> Perto de Lá”, an artist exchange program between Salvador, Brazil and Chicago organized by Comfort Station (Chicago), Projeto Ativa (Salvador) and Harmonipan (Mexico City) between 2019 and 2020. Marina has a degree in comparative literature from the University of Chicago and works with art and cultural programming in different organizations in the city. Her interviews with artists and organizers have been published on THE SEEN, South Side Weekly, Newcity Brazil, and Lumpen magazine.